Tuesday, June 22, 2010

Licia Olivetti jun/2010

Hoje esqueci a memória em casa e resolvi começar tudo novo.
A última palavra jaz ainda quente e muda olhando a janela, já eu me encontro aqui fora a sonhar com a vida rejuvenescida que de longe me espia pela frincha escondida entre duas pedras, desconfiada. Aguardo a permissão, a possibilidade de ser feliz, e a ordem não vem.
A mediocridade espera sua vez.

Friday, May 14, 2010

Tempos de Ambrosia


Tempos de Ambrosia, Licia Olivetti NYC 2010 ©

A noite descansa sobre nós.
Serenos azuis dois olhos presos
correm livres num saltar de noz,
prisoneiros de líquidos anzóis,
desiluminados de dois sóis.

Tesa a madrugada segue fria.
Quietamente a natureza cria,
em conchas de maresia,
as águas que encherão a pia
para o batismo do dia.

A manhã surge farta e molhada,
já num cansaço de morta.
Sabe o homem da mata
será longa a sua jornada,
já exausto e sem nada.

À tarde, o sol maciço aquece
o coração de quem cedo esquece.
Turvos sonhos a mente tece.
E se a felicidade deles soubesse,
talvez nunca mesmo viesse.

A viver só de ambrosia,
em macedônias de azul celeste,
muita alma mercenária,
entoa angélica um hino ao ente
cuja vida nem pressente.

Thursday, May 13, 2010

Na Idade das Pedras

Na Idade das Pedras, Licia Olivetti NYC 2010 ©

Impenitente, desnuda, manifesta gema.
Lavrada a dor revela em cantos secretos
a robustez senil, a concreção modesta.
Chovem das copas dos tetos
pingos negros de vida, grãos de paineira,
germes dormentes, quietos,
em brancos, puros flocos de lã.
Tatuagem franca e natural:
martírios, formas catalãs num mural.
Tortura de arma branca, marcas na testa
as filhas de sina baldã eleitas pela quimera.
Pores-de-sol e amanheceres
vermelhos, ocres, azuis e lilases;
perfis, narizes, recortes, análises,
tez fugidia, reflexos tão fugazes,
ascépticos pareceres, vulcânicos gazes.
Prados, presas, montes e mortes,
despenhadeiros, abismos e cortes;
quebras, rachaduras, ataduras,
separações, desesperos, conjecturas,
furos, poços, ranhaduras,
ferimentos antigos de cicatrizes maduras:
risos de costura azeda, ressaca de falcatruas,
estupendas bebedeiras, suporte de ligaduras.
De ascensão e queda, de precipícios e alturas
correm fios de ouro e mel,
secas tinturas de água e fel,
espumas ácidas de óleo e suor
cortando o vil canal de argila, corda e metal.
Bocarras atrozes lançam seu grito ao céu.
Boquirrotas, línguas secas, Babel.
Esgar do morto, tom do igual,
melodias algozes, fóssil horto,
perdido atol no mar do céu.
Ato suspenso, vida de déu em déu.
A vida enterrada lá dentro, os túmulos abertos,
os mortos jazem ao léu.
Cavernas secretas, gozos mudos, discretos.
Dores antigas, medos incertos.
Junções, ligamentos, conexões, insetos.
Articulações, dourados filamentos, convenções,
encaixes orgânicos, políticos, egocêntricos.
Círculos secretos, seios concêntricos.
Rochas dançantes, minerais arfantes.
Penedo carnal, lápides desconcertantes,
caminham por obstáculos, entre cálculos decentes.
Os negros tentáculos de estranhos vernáculos
por fim vencem a fraga em todos os limites.
A forma remanescente é amorosa e lousã.
Túmulos, bustos e Bhudas enjeitados como dantes,
abstratos criados na terra de Nantes.
Ápice e contemplação, apego e abnegação,
templo do despudor e, destarte toda rocha inibida
em ígnea meditação, declara a ação e o asserto
num concerto de rochas mutantes.
Cada veio, cada vão, uma nota, um concerto
de cinzéis dinamicamente participantes.
Luz filtrada de folhas escorre
em reflexos virilizantes de água de fonte.
Vento em sinfonia de árvore,
balé de três elementos:
a luz, o vento e as rochas.
As máscaras de homens,
as emoções pueris, os choros e os dramas
iluminados pela luz das lanternas:
papel, bambu e forma,
espaço-lugar e luz morna.
As pedras, as rochas iluminadas,
todas são evas de muitas faces.
Menires, sulcos, manchas eternas,
obeliscos, picos e frestas,
cânions sombrios, chapadas desertas
marcas do amor na idade das pedras.

Thursday, April 15, 2010


Bernardas, Licia Olivetti NYC Abril, 2010 ©


Pra cada um ou tudo ou nada
outros nada em retaguarda
Naquele álbum o algoz
semi nenhum de nada
tem tudo aquilo na vanguarda
Esse aqui todas feroz
essa ali todos amada
Uma tida como bernarda
foi tudo aquilo e quase nada
Aquele lá que toda vez
tem toda quanta quis deitada
bate agora em retirada
amarga doce faça tez
Do só fazer minha ninhada
alguma quer tudo sem nós
se ao final da madrugada
um sol restar é toda indez

Tuesday, April 13, 2010


Casas de Família, Licia Olivetti NYC 2010 ©


Nas casas de pedra da minha infância,

o assoalho é feito de madeiras de lei, fenda e receio.

O medo a me olhar do escuro

é um outro olhar que me encontra impuro.

As sombras, as portas altas, a família,

os muitos cômodos, que de nada se ocupam

a não ser dos muros que os circundam,

estão lotados de poeira e imagens.

Imóvel, há muitos séculos, a mobília

mira as paredes onde repousam os retratos.

O vento e o sol que entram pelas venezianas

fazem o pó de ouro dançar no ar.

O eco dos gritos do banho morno

e o ranger de dentes do sobrado morto

infundem-me um terror seco e tamanho,

que ainda sinto o corpo enregelar

e a face contorcer-se em pranto

pelas fissuras feitas com sereno dano.

Thursday, March 11, 2010




Opus Next Day, Licia Olivetti Dez,2010 NYC ©


o pão a venda a quenga
o cão a tenda a fenda
o não o tão emenda
entenda o vão
em tenda a paixão
contenda
capenga a mão
horrenda quão
e o pobre são
tenha e contenha

o pus os nus conduz
seduz capuz reluz
opus anos onus
obus cajus ônibus
de cujus bonus somos

allure detour à jour
surprises at noon failure
secure the mules toujour
l’amour demi sunrises moon

os ais os tais dais
os mais o cais canais
os sais os pais rivais
ou traz ou faz ou vais
o gás o ás os quais
os xás rapaz a paz
nem sempre se perfaz

sem trova ou prova outrora
sem rima em cima filma
adora a nova diva
agora a bruma aprova
a obra da serpente canora
o duro o puro obra
enquanto ora o burro
trabalha agora corpsis
em sua hora nobis

Wednesday, March 10, 2010


Vãos, Licia Olivetti 2010 NYC ©

Tudo se perde.
Tudo se esvai.
Escorre pelos vãos dos dedos
em gestos abissais,
mergulha na areia,
perdido num mar de grãos.

Nada será,
como nada, às vezes, pode ser tão cruel.
O fadário,
com sua mão de mar,
atira com violência
o náufrago às pedras,
traste, pano sujo,
plástico, galho de árvore,
alga morta agarrada às rochas.

O gesto inútil,
o grito vago,
as marcas da batalha enfim perdida.
Medalha de marisco,
honra de camarão.

O mar que ofende a pedra,
a pedra que traga o mar.
O sol que seca o sal,
ruído que embala o mar,
venta venta moinho,
o tempo que faz andar

Outro dia, outra hora,
nova vida, outro amor.
Tristeza,
casa do pavor,
a hora de ir é sempre a boa hora.

Monday, March 8, 2010


Uma canção de ninar, Licia Olivetti NYC 2010 ©

Uma canção de ninar no canto quieto da sala vazia
Bala de hortelã que dança na boca do céu
Abóboda de porcelana, vidro, veludo, véu
Em quarto crescente, a noite cega
sorri, sonha e espera

Thursday, March 4, 2010

Soneto do Abandono, Licia Olivetti NYC 2010 ©


Quem te acudirá,
cão das avessas?
Quem cerzirá teu laço roto,
cortado, arrancado
que foi de ti todo o bem
e todo o mal e toda a vida?
Quem ouvirá teus gritos surdos,
surpresa antiga,
as alucinações, os surtos?
Ao cair da tarde é que a inimiga surge.
E quem te cortará os pulsos
e quietamente encerrará teu curso?

Falhaste, tua vida é um insulto.
Teu andar são sustos.
A sentença é bruta:
na pedra fria a cabeça pousa.
Ao lado, a guilhotina, o machado e a espada.
Será por fim tão cruel a pua
para quem na vida ousa
andar com a alma nua?
Pensaste sem sentir,
sentiste sem morrer,
amaste sem mentir,
sofreste sem correr.
O homem parte sem voltar,
o leite ainda a lhe escorrer dos beiços.
Quem te dera descer da vida, ressemear o tempo
a teu favor, atender desejos que fossem teus!

Só na escuridão me reconheço.
Busco-te em desvãos,
em calhas, em tugúrios.
Estás em toda parte.
Todo no começo.
Dos meus gritos, só há murmúrios,
dos meus gestos, somente as mãos
cessarão o quanto fui até os ínfimos resquícios.
Despertarás um dia
do pesadelo que te inflingi
e descobrirás que estás calado.
Somente a teu lado,
a minha ausência.

Tuesday, February 23, 2010

Beatriz



Se eu fosse você, sairía logo daqui e visitaria o site da Beatriz.

É bem mais interessante do que o meu bloguinho.

Há muitos



Há muitos, Licia Olivetti NYC 2010 ©

Alguns nunca se entregam. Muitos não se dão por achados. Há sempre os que continuam a acreditar. Outros investem por tradição de família, costume entre os seus iguais, hábito doméstico ou vício emperdenido. Tem aqueles que crêem e os que crêem em si mesmos ainda em maior número. Uma pequena multidão espera, enquanto o resto da malta se agita. O exsudar da mata, a animália guardiã da carne, o silêncio dos pássaros, só os olhos, só os olhos. Sapos e pestes, nuvens de mosquitos zanzam para lá e para cá. Há os que se agitam e os que agitam lenços ao longe. Língua de mãos e braços. Partir é deixar parte de si, já me disseste assim. Então, vou para que fiques com junto e em ti. Tu que ficas nada deixas comigo, nada do que resta do fogo cruzado da culpa que, a final, restará contígua. Eu vou para onde estás, deixando-te. Abandono as tuas possibilidades. Carrego-as num alforge de idéias antigas. Tu és a realidade do passado. Cadas vez que penso em ti, exumo-te.

Há os que nunca chegam, os que sempre partem, os que jamais deixam a terra natal de seus pais. Em tempo algum deixarei de ser teu e assim sendo, partirei constantemente, obstinadamente. Eu não queria uma causa, uma bandeira, um vento, mas o modorrento passar das horas em que eu pudesse beber teu hálito, tragar teus gestos, tocar seu rastro. Busco-te para que me firas ainda e na agonia possa sentir-me um teu eterno objeto de desdém e horror. Em espelho múltiplo multiplico os erros e de um só golpe - tu. Preso em tua sombra sigo imperceptível... sigo a deixá-la todos os dias.

Saturday, February 13, 2010

À espreita



À espreita, Licia Olivetti NYC 2010 ©

Se navegar o texto é preciso, vou assim morrendo aos poucos, conforme a necessidade doméstica simbolicamente prenuncia. Carrego todos os pedaços de mim comigo, sem misericórdia aos cães que passam. A caravana de males detém-se no encontro entre dois mares, e ali onde se agitam os sargaços, enredado e seguro, complicado e a salvo dos fatos - eu. Notícias que se esperam sempre. Há o que se esgueira à minha espreita e o que me espreita à sua espera. Em silêncio obsequioso, quase nunca religioso, aguardo. Alas. Memórias migrantes. Eu atrás da vida. Sempre chego depois dela. Preciso conhecer-te os passos, ser teu inimigo. Odiar-te. Encontrar-te nua e disponível em um quarto de hotel. Desprezar-te. Malquerer-te. Pôr a faca em tuas mãos e dar-te as costas. Só te quis assim porque não podia ter-te. Eu te persegui só porque não podia alcançar-te. Eu te desejei no corpo para que a alma permanecesse fria, como tudo que está é vivo e tudo que é permanece morto. Eu ainda te quero, ainda estou para jamais sê-lo. Foste. Fui. Agora sou a dor do amputado. Os fantasmas das possibilidades rondam-me. ... mas um morrer inconsciente, uma extinção, um silêncio, uma inocuidade, uma neutralidade, um não-ser. Se eu fosse um abstrato, ficaria ali colado entre a parede e as costas das pessoas por uma semana ou duas, inlocal e inmundo. Outro cartaz. Busco-me a ponta, descolo minha pele em tiras, envolvo-me, quebro-me, dissolvo em bolhas o meu não. Saem de ti muitas palavras minhas. Apropriaste-te do meu discurso. Já não sou mais o meu inédito. Tua máscara de mim repete-me com melhor ênfase. Ignoras o significado, a origem, o processo gerativo. Ensaias um suicídio verbal. Plageias a ponderação, o riso, a poesia. Queres que eu ria e te ache garrida. Diante de ti meu olhar é fosco. A verdade é que me achaste perdido e me abandonaste antes que eu me anelasse ao teu pescoço. Um arlequim de asas de cera. Sobrou-me as tuas costas frias, lápide da atenção e do gozo. Minhas convicções se assentavam em tua dúvida, minha segurança em teu exitar. O companheiro do tempo desaparecerá no voleio da túnica do inverso.